(Publicado originalmente na Revista Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais, 3a ed., ago/16)

Manoel Leonardo Santos 

Ciro Resende 

Eduardo Ribeiro Galvão 

 

Os últimos anos foram marcados por uma série de eventos que apontam para uma profissionalização acelerada da atividade de Relações Institucionais e Governamentais (RIG) no Brasil. Entre esses eventos podem-se citar as diferentes frentes abertas para regulamentação, a oferta cada vez maior de MBAs especializados na área, o aumento significativo de novos associados da Abrig, entre outros que ajudam a identificar esse processo.

Este artigo sumariza os resultados de recente pesquisa realizada em parceria entre a Abrig e o Centro de Estudos Legislativos do Departamento de Ciência Política da Universidade de Minas Gerais. Os resultados aqui apresentados confirmam os achados anteriores, fortalecem o argumento da profissionalização e mostram um quadro bastante diferente daquele que a opinião pública e o senso comum têm sobre a atividade de RIG.

Aspectos gerais da pesquisa

A pesquisa foi realizada entre julho e dezembro de 2016 e combinou estratégias quantitativas e qualitativas. A parte quantitativa consistiu na realização de um survey online, aplicado aos profissionais. A pesquisa de survey obteve 163 respostas. Já a estratégia qualitativa consistiu na realização de entrevistas e grupos focais com os profissionais. Nessa parte também se registra a observação participante dos pesquisadores em vários eventos e atividades realizados ao longo de 2016.

A amostra apresenta uma concentração no setor da indústria (52,8%), muito embora conte com representantes de outros setores e com certa diversificação. Como não é aleatória, não é possível fazer generalizações para toda a comunidade de RIG. Mas há razões suficientes para afirmar que ela representa bem os associados da Abrig e razoavelmente os principais setores da economia: o industrial (52,2%) e o de serviços (22,2%).

Tabela 1. Setor da economia onde atuam os profissionais de RIG

Setor da economia N %
Indústria 86 52,8%
Serviços 33 20,2%
Terceiro setor 8 4,9%
Comércio 4 2,5%
Agricultura e pecuária 3 1,8%
Financeiro 1 0,6%
Outros 24 14,7%
NR 4 2,5%
Total 163 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

 

Como se pode ver na tabela 1, a indústria está sobre representada. Isso se deve ao capital social do setor, mas principalmente à representatividade e profissionalização da atividade de representação de interesses da CNI e de outras confederações do setor produtivo.

Embora seja o mais forte na economia brasileira, o setor de serviços está sub representado. Não se tem explicações mais robustas sobre esse viés por enquanto, mas talvez isso se deva a um viés da amostra. Novas investigações precisam ser feitas nessa direção.

Recomenda-se que esses resultados aqui apresentados sejam vistos como significativos para os setores econômicos mais importantes, ficando de fora generalizações acerca de toda a comunidade de RIG no Brasil.

 

Qualificação do profissional

Quanto à formação dos profissionais, o primeiro ponto a destacar é a alta qualificação. Os números descrevem um grupo profissional altamente especializado e qualificado, com 61,0% dos respondentes com MBA ou pós-graduação lato sensu, e 22,4% dos profissionais com pós-graduação stricto sensu (mestrado ou doutorado). Apenas 15,8% dos profissionais tem graduação e não há registro sobre profissionais sem curso superior.

Tabela 2. Grau de instrução dos profissionais

Grau de instrução N %
Ensino fundamental 0 0,0%
Ensino médio 0 0,0%
Graduação 25 15,8%
Pós-graduação lato-sensu ou MBA 97 61,4%
Mestrado 29 18,4%
Doutorado 7 4,4%
NR 0 0,0%
Total 158 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

 

Quanto à área de formação, evidencia-se uma ampliação na diversidade de profissionais. Nada menos que 24 formações diferentes foram registradas. Assim, muito embora ainda prevaleçam os profissionais com formação em Direito (27,2%), a atividade de RIG tem recepcionado profissionais especializados também em Ciência Política (11,7%), Administração (11,0%), Relações Internacionais (7,8%), Engenharia (9,1%), Comunicação (9,1%), Economia (8,4%) entre outras áreas.

Essa diversificação é um indicador de que a atividade se expande para a realização de tarefas para além da representação e do aconselhamento jurídicos. Essa diversificação pode ser vista como uma evidência da profissionalização da atividade, pois indica que o mercado de trabalho valoriza diferentes especialidades.

Essa valorização é movida pela necessidade dos profissionais de RIG realizarem uma gama cada vez maior de atividades que envolvem as relações entre o setor produtivo e o Estado. Pode-se registar entre essas atividades: o monitoramento sistemático do processo político-decisório, a análise do ambiente político, a produção de conhecimento especializado para fundamentar a atividade de influência, a análise de riscos e de mercados, o monitoramento e o posicionamento estratégico de temas na opinião pública, o conhecimento do ambiente regulatório e seus impactos sobre a produção, entre outras atividades.

Contudo, como a oferta de MBAs em RIG é recente no Brasil e as primeiras turmas estão se formando nesse ano, a pós graduação específica para a área ainda não se refletiu nos dados desta pesquisa. Nos próximos anos é possível que haja um incremento no grau de especialização e ainda que a capacitação específica em RIG tenha uma participação expressiva nos resultados.

 

Profissionalização da atividade

A pesquisa mostra também evidências da profissionalização cada vez maior da atividade em pelo menos em três dimensões: a identidade profissional, as relações profissionais estáveis e formalizadas e o reconhecimento da profissionalização por parte das empresas.

Vínculos profissionais

O tipo de vínculo profissional mais encontrado entre os respondentes foi aquele no qual o profissional faz parte do quadro de funcionários da organização/empresa para a qual desenvolve o trabalho de RIG. Os profissionais in house que atuam tanto em empresas quanto em organizações de representação de interesses, tais como entidades do sistema corporativista e associações, somam 58,6%. Como se vê na tabela 4, pouco mais de 1/3 dos prestadores de serviços.

Tabela 4. Vínculo profissional

Vínculo N %
Faz parte do quadro de funcionários da organização/empresa (in house) 85 58,6%
Prestador de serviço para a organização/empresa (contratado) 50 34,5%
NR 10 6,9%
Total 145 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

Outro dado importante que ajuda a caracterizar os vínculos profissionais está na tabela 5, que mostra que 63,4% dos respondentes afirmaram que se dedicam exclusivamente a essa atividade.

Tabela 5. Dedicação à atividade

Dedicação à atividade N %
Com dedicação exclusiva 92 63,4%
Em tempo parcial 50 34,5%
Prefiro não responder 3 2,1%
Total 145 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

Esses dados ajudam a sustentar que o trabalho de RIG hoje apresenta um grau elevado de profissionalização. Vínculos formais e duradouros entre empregadores e contratantes, assim como a dedicação exclusiva à atividade, são bons indicadores de que a atividade é cada vez mais estável, estruturada, formalizada e reconhecida pelas empresas e organizações que recorrem aos profissionais.

Essa caracterização afasta definitivamente o profissional aqui descrito daquele estereótipo pejorativo do “vendedor de agenda” que em geral é traçado pela opinião pública. O profissional descrito pelos dados está longe de ser aquele intermediário de interesses e favores, que se estabelece pelas suas relações e prestígio pessoais, pelo acesso que afirma ter aos poderosos e/ou por seus vínculos nem sempre bem explicados com os interesses econômicos.

Uma hipótese que emerge a partir da conexão desses resultados é que as organizações têm demonstrado, como forma de prevenir riscos, uma preferência por profissionais com perfil técnico e estratégico frente àqueles cujo diferencial são as relações pessoais.

Profissionalização nas empresas e organizações

Pelo lado das empresas, os dados também corroboram a profissionalização da atividade. É possível afirmar que há também evidências de profissionalização quando se verifica o tratamento que as empresas e organizações dão à atividade. 76,8% dos respondentes afirmaram que a atividade na empresa/organização para a qual trabalham é altamente profissionalizada (39,3%) ou profissionalizada (37,5%).

Tabela 6. Grau de profissionalização da atividade na organização onde trabalha.

Grau de profissionalização N %
Altamente profissionalizada 22 39,3%
Profissionalizada 21 37,5%
Em vias de profissionalização 12 21,4%
Amadora (assistemática e esporádica) 1 1,8%
NS/NR 0 0,0%
Total 56 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

As demais evidências, contidas nas tabelas abaixo, ajudam a confirmar esse grau de profissionalização. Quando inquiridos sobre se na sua organização ou empresa existia um setor dedicado à atividade e qual o posicionamento desse setor no organograma, nada menos que 70,6% dos respondentes afirmaram que sim, e que esse setor está localizado no nível estratégico. Chama a atenção o fato de apenas 1,2 em cada 10 organizações e empresas (mais precisamente 12,9%) não contarem com setor específico para a atividade de RIG.

Relatos de participantes da pesquisa contam que, há trinta anos ou mais, os mais experientes começaram a desempenhar a articulação política para defesa de interesses de maneira complementar à àrea que atuavam: jurídica, comunicação, etc. Hoje evidencia-se a institucionalização de departamentos próprios com objetivo específico de desempenharem relações com o Estado.

Essa evidência aponta o status estratégico dado pela maioria das organizações à àrea de RIG dentro da cultura organizacional.

Tabela 7. Existe setor dedicado à atividade na organização

Setor/status na organização N %
Existe e está em nível estratégico 60 70,6
Existe e está em nível intermediário 9 10,6%
Existe e está em nível operacional 2 2,4%
Não existe setor dedicado exclusivamente a atividade 11 12,9%
NS 2 2,4%
NR 1 1,2%
Total 85 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

No que diz respeito à existência de uma equipe especializada em políticas públicas e Governo, os valores também foram muito elevados. Em nada menos que 65,9% das empresas e organizações existem essas equipes. Isso significa dizer, em outras palavras, que a cada 3 empresas/organizações, 2 contam com uma equipe especializada que tem como função produzir informação qualificada para subsidiar as atividades de Relações Institucionais e Governamentais

Tabela 8. Existe equipe especializada em políticas públicas e governo na organização

Equipe especializada N %
Sim 56 65,9%
Não 24 28,2%
NS 5 5,9%
Total 85 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

 

Quando inquiridos sobre o grau de especialização dessas equipes, os respondentes afirmaram que a maioria delas é especializada. Se juntarmos os respondentes que afirmaram que as equipes são especializadas e muito especializadas, temos nada menos que 71,4% das respostas. Chama a atenção o fato de apenas 7,1% dessas equipes serem classificadas como pouco especializadas.

Tabela 9. Grau de especialização do staff

Especialização dessa equipe N %
Muito especializada 22 39,3%
Especializada 18 32,1%
Moderadamente especializada 10 17,9%
Pouco especializada 4 7,1%
Nada especializada 0 0,0%
NR 2 3,6%
Total 56 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

Em resumo, seja baseado nos dados dos profissionais, seja nos dados das empresas e organizações, as evidências aqui encontradas sugerem um alto grau de profissionalização da atividade. E essas evidências ajudam a construir um cenário diametralmente oposto ao preconizado no senso comum e pela imprensa sobre a atividade de lobby no Brasil.

Confrontando esses dados com aqueles apontados sobre a especialização e instrução dos profissionais, pode-se inferir que a alta capacitação se destaca como diferencial para os profissionais de RIG. As organizações demonstram uma preferência por equipes de profissionais altamente capacitados e com bom conhecimento de políticas públicas e governo.

 

Apoio à regulamentação da atividade

A opinião dos profissionais sobre a regulamentação é inequívoca. Nada menos que 75,6% dos respondentes posicionaram-se favoravelmente (concordam e concordam plenamente) frente a necessidade de se regulamentar a atividade. Resultados semelhantes foram encontrados por Santos et al. (2016).

Tabela 10. A atividade de lobby precisa ser regulamentada no Brasil?

A atividade de lobby precisa ser

regulamentada no Brasil?

N %
Concordo plenamente 65 49,6%
Concordo mais que discordo 34 26,0%
Não discordo nem concordo 6 4,6%
Discordo mais que concordo 13 9,9%
Discordo totalmente 7 5,3%
NS 2 1,5%
NR 4 3,1%
Total 131 100%

 Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

Identidade profissional

As evidências ajudam a interpretar a percepção do RIG sobre sua identidade profissional. De um lado os profissionais rejeitam fortemente o termo lobby como definidor do seu trabalho: apenas 4% acham que o termo lobby é o mais adequado. De outro, há uma convergência, embora não seja consenso, de que a nomenclatura deve oscilar entre os termos Relações Governamentais, Relações Institucionais ou algum tipo de combinação possível entre eles.

Tabela 3. Nome preferido da atividade pelos profissionais

Nome preferido N %
Relações Governamentais 79 52,7%
Representação de interesses 19 12,7%
Advocacy 16 10,7%
Relações Institucionais 13 8,7%
Relações Institucionais e Governamentais 7 4,7%
Lobby 6 4,0%
Outros 7 4,7%
NS 1 0,7%
NR 2 1,3%
Total 150 100%

Fonte: Centro de Estudos Legislativos/UFMG e Abrig (2016).

É possível interpretar esse dado de duas formas:

  1. como uma estratégia de autodefesa dos profissionais, que pela diferenciação do termo buscam preservar sua imagem do termo lobby que tem forte carga pejorativa;
  2. Como o auto-reconhecimento por parte dos profissionais de que a atividade de RIG vai além da atividade conhecida como lobbying (contato direto com decision makers).

Em tese, as duas interpretações seriam formas de reconhecer, e comunicar para a sociedade, que a atividade é legítima, assim como passar a ideia de que fazer “lobbying” é apenas uma parte do grande número de atividades desenvolvidas por um profissional ou uma empresa de RIG.

Percebe-se portanto que a comunidade de profissionais de RIG, predominantemente, concorda com a regulamentação, como forma de legitimação e distanciamento de desvios de conduta, e não  deseja o uso do termo lobby para se determinarem.

 

Conclusões

A descrição que emerge da pesquisa indica uma atividade cada vez mais profissionalizada, incompatível com a visão do senso comum e da imprensa.

O que se observa é que os profissionais de RIG têm vínculos estáveis e formalizados com as empresas e organizações que representam. Outra característica importante dos profissionais é sua formação – o grau de capacitação mostra um mercado altamente preocupado com qualificação, mais do que simplesmente network, influência ou “acesso informal” ao sistema político. Essa preocupação pode ser apontada como uma demanda do próprio mercado, uma preferência de perfil pelas organizações como forma de aumentarem sua competitividade e evitarem riscos de condutas indevidas.

As empresas também mostram avançado grau de profissionalização da atividade. Grande parte das empresas conta com setor específico para cuidar da defesa de interesse em políticas públicas. Em geral o setor de RIG, quando existe, está predominantemente no nível estratégico. Além disto, a maior parte das empresas conta com equipes especializadas para produzir informação e dados para subsidiar as atividades.

No topo da lista dos atributos considerados mais relevantes pelos profissionais estão: conhecimento técnico e experiência. Mais uma evidência de amadurecimento e profissionalização que indica o real perfil do “lobista” moderno (ou profissional de RIG como, viu-se, preferem ser identificados) em contraponto à versão caricata do senso comum.

Quando os próprios profissionais e o mercado valorizam esses atributos, mais do que a atributos personalistas, eles sinalizam para um “tipo ideal” de profissional que é ao mesmo tempo competente, bem formado e sólido no mercado.

Em geral, pode-se concluir que a ideia de um profissional que lança mão predominantemente de seu prestígio pessoal, de suas ligações com os poderosos, do seu acesso baseado nas relações de clientelismo e predominantemente em relações informais é um equívoco. Ou, quem sabe, diga respeito a outro tipo de atividade.

O quadro que emerge nessa pesquisa é diametralmente oposto. Ele mostra uma atividade profissionalizada, qualificada e baseada em relações formais e estáveis.